domingo, 12 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Pingos no chão e bolhas no ar...
Pingos
no chão e bolhas no ar...
À Avenida Leovigildo
Filgueiras, no bairro do Garcia, ao dobrar-se a esquina do Colégio Antônio
Vieira, havia lá um beco de má fama. Havia nesse lugar quintais malvistos. Difamados,
eram esses terrenos abandonados. Faziam a alegria de nossos verdes canudos. Aí
cresciam fartas mamonas.
Desvio do olhar. A casa
de Leonor, de tão alva, mais parecia um bolo
de noiva! Na realidade, tratava-se da Rua da Curva Grande. Hoje irreconhecível. Luxuosos arranha-céus foram aí surgindo, ano após ano, e logo
substituíram as graciosas casinhas
coloridas tipo bolo confeitado. No movimentado trânsito de carros novos, diria
hoje tratar-se de morada de alto padrão.
Essa curva grande, que se dobrava à esquina do colégio dos padres, não
rezava de boa reputação. No deslize da
atenção adulta, eu e as meninas gêmeas
da Casa da Torre, mais as outras
meninas, as da Casa Rosa, embarcávamos num prazer volátil. Seguíamos a viajar
naquelas esferas transparentes. Planetas de luzes. Bolhas de sabão azul.
Canudos de mamona. Água
de sabão no caneco esmaltado. O chão de nossas casas se via constantemente
molhado. Na dança das horas, parte da rotina doméstica, a vassoura e o esfregão
se mostravam incansáveis. Mantra necessário, uma forma de oração. Todos os dias havia reclamação. Acostumada
àquela lenga-lenga, fazia ouvido de mouco. E assim ia passando.
Pingos no chão e bolha
no ar. Como passavam leves aqueles meus dias! Ensaboados, no prazer molhado. Escorregadia,
deslizava nas mentiras. Por sinal, desculpas bem esfarrapadas, mas, que de
certa forma, me livrariam de possíveis castigos. Detestava ter que ficar de pé,
de cara contra a parede. – “Vou ali, na
casa de tia Gem...” E assim desaparecia de vista. A esquadrinhar limites impossíveis, daquele
universo proibido, sentia-me que nem Marco Polo em busca de novas terras.
Fascínio irresistível, de quintais proibidos.
Cara feia de meter medo
a menino, e gente grande também. Fotografia em preto e branco exibe facínora de
crônica policial. Personagens de rua vestem, muitas vezes, acontecimentos
sinistros. Na aparência se fazem figuras do mal. Havia justificada preocupação. Até que um dia,
as barras de sabão azul, para nosso desapontamento, desapareceram do tanque de
lavar roupa. Eram tantos os culpados, mas não se poderia apontar o dedo. Não
havia muitas certezas. Sem outra alternativa, os adultos sabidos acharam melhor
esconder o sabão das nossas vistas. Na verdade criatividade nunca nos faltou.
Logo arranjávamos outra saída.
Guerra de arraias. Com
os meninos do Beco do Sabino aprendemos fazer coloridas arraias de papel de
seda e lascas de bambu. Mal intencionada, a linha, como ainda se faz hoje em
dia, era temperada com uma espécie de cola sinistra. Para tal, se fazia
necessário moer o vidro. Cabia ao bonde fazer o serviço de graça. Garrafas
vazias, de vinho ou de cerveja, surrupiadas às pressas das prateleiras da
escura despensa da casa seriam esvaziadas para tal. Mais tarde, davam por falta
das garrafas. Fazíamos cara de inocente e ficava por isso mesmo.
De ruas e de becos
próximos, do Beco do Sabino e do Beco dos Protestantes. Turma grande. Meninas e meninos, mais ou
menos da mesma idade. Fazíamos juntos,
incursões desastradas. Nos enfiávamos por aqueles quintais de perigos
fascinantes. Ninguém por lá nos achava. Cortar o dedo em cacos de vidro ou em latas
de conserva era acontecimento banal. Às
vezes dolorosas queimaduras nos faziam chorar de dor. Quando ao passar de raspão pelos arbustos de urtiga e
cansanção. “Urine em cima que passa...” Na verdade doía mais ainda.
Pingos no chão e bolhas
no ar. Corríamos atrás da nossa preciosa
invenção. Verdes canudos de mamona. A chafurdar por aqueles quintais repletos
de rejeitos domésticos, divertíamo-nos a valer. E sem a falsa necessidade, de
colorida matéria plástica. Carrinhos e bonecas. Os brinquedos dos possuídos de
bens eram comprados nas lojas caras de Salvador, na Rua Chile.
Quintais reveladores de
gratas surpresas. Esses lugares cheinhos de perigos nos atraíam. Via-se aí
coisas impensáveis. Até brinquedos caros! Levemente danificados, eram despejados nos terrenos baldios. Os criados da Casa Amarela e também da Casa
Alva, disto se encarregavam, sob as ordens dos patrões.
Férias escolares. Tempo
de vadiar. A boneca loira de olhos azuis com um rombo na cabeça foi disputada a
tapas. Ganhei! Ao chegar em casa, que
decepção! Arrancada das minhas
mãos, logo foi levada de volta para o
lugar de onde tinha vindo – para o lixão da Curva Grande.
Na realidade, havia aí
nesse pedaço de bairro, além de quintais malvistos, o império de uma feia
maldade – um espaço de separação radical. As amas, da
Casa Azul e da Casa Amarela, seriam encarregadas de manter as meninas de seus
amos o mais distante possível do nosso
grupo.
O grupo dos rebeldes.
Leonor, a menina esnobe da Casa Branca, virava a cara quando passava. Seguia
galante, ao lado da babá empertigada, de touca e avental, num engomado uniforme
branco. Mas de certa forma até nos comunicávamos. Fazíamos caretas horrorosas. Trocávamos gestos,
não muito educados, mas de grande satisfação afinal.
Cabelo rapado e pimpão ajeitado em pastosa brilhantina. O estilo topete era moda na época. Havia
guerra de mamonas. Meninas contra meninos. Ardilosa, manejava bem o estilingue.
Logo surgiam lustrosos calombos nas cabeças dos meninos. Só os mais fracos
choravam. Bobos. Por isso mesmo se tornavam alvo predileto das meninas. Quantas vezes corria a esconder-me no enorme
guarda-roupa negro do quarto do meio. Sentia-me culpada por fazer o menino
chorar. A mãe então, enviava seu porta-voz, pau pra toda obra, a ama da
família, que vinha bater à nossa porta.
Amélia, a nossa fiel ama negra, usava de bom senso. Tentava acalmar os
ânimos.
– “Pode deixar... O pai
dela vai logo saber. Assim que sair a última fornada. Ela (eu) vai ficar de
castigo!” Geralmente isto não acontecia. Afinal, eram tantas as reclamações!
Não adiantava mesmo levar adiante aborrecimentos menores. “Coisa de
criança...”
Meu pai, o padeiro galego
do bairro, simpático e comunicativo, nem tinha ainda cabelo branco quando
enviuvou. Disputado pelas solteironas do bairro, principalmente por Dona Olga,
a professora de Matemática da banca da tarde e que nos enchia de mimos. Parecia
que ele andava mesmo era muito ocupado. Não se decidia. Nem por esta, nem por
aquela. Noite e dia se via ao batente, entre o forno e o balcão. Meu pai
costumava acordar bem cedinho. Mantinha
a mão na massa. Da manhã até ao
anoitecer. Até que fosse vendido o último pão do balaio.
Notável paleta de cores.
Aquele dia que se ia feliz. Final da
tarde ao sol poente. No batente da frente já se via cama feita. Breve morada de
cão sarnento. Satisfeito, na má fama
que possuía, o velho cachorro de rua se lambia a nossos pés.
Pingos no chão e bolha
no ar. Regresso ao templo. O velho armário de cozinha. Portas trancadas. Chave
escondida no bolso do avental. A ocultar a razão do efeito inebriante. Desejo
negado moveria prazer intocável. Efêmero existir suportaria o medo no mito da calada
intenção adulta. Sim, porque teria na voz, a chave a vez do “não”. Sua intenção
malvada.
Terrenos baldios. Histórias
reais. Mamonas verdes aí cresciam férteis. Entre fornadas de pão-de-açúcar, seguíamos
soprando os nossos canudos. Bolhas no ar. Assim fomos crescendo inteligentes.
Na sábia arte de driblar os adultos tolos.
Quantas vezes retornaria aos ermos quintais da minha cara lembrança! De
casas abandonadas, dos barrancos molhados. Afamados sumidouros da Rua da Curva
Grande.
Aventura de criança, precaução
de adultos. Medo razoável. O que viria depois? Irresistível orbitar. A sensação
do prazer intocável. Sem mágoas apresso meu passo. Refaço-me em águas antigas.
– Pingos no chão e bolhas no ar!
Valença-Bahia-Brasil
2013
Pingos no chão e bolhas no ar....
Crônicas: “Nada mudou por aqui...”
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Para Eduardo Almeida:
O índio que falava
francês
Brasil Central. Latitude 14
Norte. Outubro de 1982. Já caía a noite. Da
minha base, na aldeia Karajá de Hãwàló, denominado pelos colonizadores
religiosos de Santa Isabel do Morro, às margens do rio Araguaia, na Ilha do
Bananal, um remoto posto indígena, a esse tempo administrado pelo indigenista
Eduardo Almeida.
Em São Félix do Araguaia, na margem
oposta do rio, já nos limites do estado do Mato Grosso com Goiás, hoje
Tocantins, ficava a paróquia sede do
bispo Dom Pedro Casaldáliga. Fundador da
Pastoral da Terra, era ele ideologicamente considerado homem perigoso. Sob um regime
politico autoritário, os militares ainda no poder, este religioso era vitima de variados tipos de
repressão. São Félix do Araguaia, para nós funcionários da Funai, tornara-se lugar
proibido, perigoso. Um terreno minado. Havia gente nos olhando, vigiando. Cochichos
e delações, era prazer de muitos. Algumas vezes estive aí visitando o bispo. Privilégio
meu. Hoje disto tenho consciência. Assistia discussões em torno de assuntos
beligerantes. O índio e o posseiro e principalmente, sobre o assistencialismo por
parte do órgão federal que assistia aos índios.
Missão de trabalho. Rumo norte alcançaria
a aldeia de Macaúba. A seguir, a aldeia Javaé. Alcançando o rio Tapirapé, a
aldeia do mesmo nome e na mesma área, uma pequena comunidade Karajá.
Mineira de Pedra Azul, Rosinha, moça
tímida, era uma professora recém-contratada pela Funai. Seguiria viagem comigo.
Percalços de viagem. Uma aventura invulgar
marcaria as nossas vidas a partir de então. Diria que, prenúncio de tragédia anunciada, mas que
felizmente não chegou a acontecer. Tornamo-nos amigas. Rosinha deixava entrever
na sua face a expressão de natural preocupação. O encontro direto com um mundo
desconhecido até então. Sua destinação seria o posto indígena da aldeia Karajá
de Macaúba, à margem esquerda do grande Araguaia.
Comunicação precária. Valia-se do rádio
ou do telégrafo. Não havia ainda nesse tempo telefone celular, nem tão pouco
computador. Caberia ao chefe do posto de
Macaúba, o gaúcho Lourenço, o manejo daquela parafernália. Seria um meio de
sobrevivência frente ao inesperado.
Isolada, longe do meio urbano, Rosinha teria
que se fazer valer do seu bom senso. Sabedoria seria companheira. Ser corajosa
afastaria os medos. Uma vez por mês, às vezes nem isto, teria a visita de um
dentista, do médico e da enfermeira que viria aplicar as vacinas necessárias.
Como de costume, a cada três meses, seguia
eu em missão de trabalho. Durante a estação das cheias, o transporte, muitas
vezes precário em barcos relativamente pequenos, eram sempre cheios. Os pequenos
aviões que se fretavam, os monomotores, estariam disponíveis somente na época da
estiagem. Nessa específica área de mata isolada, entremeada por rios e lagoas, eu
era a única dentista disponível a serviço da Funai. Por dois anos permaneci
como tal. Até que um dia, o coronel, chefe do departamento de saúde em
Brasília ao qual estava subordinada, olhou para os belos desenhos que estampava. Belos motivos Karajá que a
Xureréa, mãe do Korihete e antiga mulher do cacique Maluaré, havia pintado nos
meus braços e mãos, com tinta de jenipapo e carvão. Virando-se para o assistente ao lado, o
coronel, ironicamente perguntou: "é esta a dentista que queria se tornar
índia?!" Apenas o início do meu fim. No
regresso das minhas férias em Salvador estaria, irrevogavelmente demitida.
Atrelada à uma equipe técnica mista, viajava
rumo às comunidades indígenas. Contornando
a Ilha do Bananal, navegando o braço menor do rio Javaés, chegávamos à aldeia
Javaé e de Macaúba. Rio acima, alcançávamos o Tapirapé, e a aldeia indígena do
mesmo nome.
Calor infernal, mosquitos e desconforto.
Nossas vidas estariam, literalmente falando, nas mãos de Seu Manoel, um
conhecido barqueiro, homem nativo dessa região, considerado bravo e corajoso. Na
sua experiência, de muitos anos, sabedor de cada curva do rio, tornara-se ele muito
respeitado. Confiável. Com ele acreditava-se
em viagem segura.
Término da estiagem. A cada curva do rio,
que ainda se estreitava devido ao avanço das praias, os bancos de areia se
revelavam traiçoeiros. O Araguaia, entre o nascente e o poente, exibia a maravilhosa
paisagem. Única. Novos eventos. Cada viagem revelava surpresas. Jacarés enormes,
sonolentos lagartos me lembravam dinossauros. Um olho fechado e outro aberto,
mas despertos, pareciam em sono
profundo. Seus ouvidos estariam bem
abertos a qualquer movimento mais próximo. Um passante incauto, ave desavisada,
capivara sedenta, por certo cairiam logo no papo do faminto jacaré. Natureza
pródiga. A cadeia alimentar aí se completava. Seus dentes, juntamente com a
força de portentosa mandíbula, causavam receio. Animal poderoso. Todos nós
tínhamos medo dos jacarés. Talvez por sua bizarra aparência. Quando da
aproximação (intrusa) no seu habitat certamente se sentiriam ameaçados.
Seguíamos viagem de maneira plácida, mas
atentas aos obstáculos, geralmente pedaços de pau, troncos de árvores que caíam
dos barrancos costeiros o que poderia causar acidentes. Poderiam danificar a
hélice do motor do barco. Acompanhávamos
enlevadas cada detalhe daquela deslumbrante
paisagem que ia se revelando a cada curva do rio.
Finalzinho de tarde meio nublado. Qual
manto envolvente, assistíamos a descida daquele sinistro cobertor, um manto de nuvens
escuras. O horizonte à nossa frente
subitamente desapareceu. Inflado os
medos, diante de tal aviso, o qual não
se poderia ser ignorado, visto que já
soprava, um forte vento de proa. Eliminadas
assim possíveis dúvidas, chegou-se à uma sábia decisão. Seria de boa prudência
passar a noite num daqueles bancos de areia. O mais alto possível! Desnudado
pela seca do verão, mas que já se ía tangido pelos ventos da nova estação, as
águas do rio já subiam de nível. Aí, não correríamos prováveis riscos. Pelo
menos assim se pensava.
Seu Manoel, cauteloso, diminuiu a marcha
do motor. Aportou bem devagarzinho às margens do alto barranco. Cuidou logo de
levantar a rabeta do motor a fim que esta
não viesse a bater na areia. Correria o risco de danificar-se. A seguir, desembarcou
parte da bagagem. A minha gorda mochila,
a dele e a da professora Rosinha, também avolumada.
Trazia o barqueiro, como de costume em
missão de viagem longa, uma manta plástica de bom tamanho. Quanto a nós, as
duas mulheres, já fragilizadas pela perversa besta do medo crescente, não
trazíamos coisa parecida. Proteção, em caso de chuva num barco aberto. Talvez
por esquecimento, não se cuidara antes desses pequenos, mas importantes
detalhes.
A chuva já se avizinhava. Apavorante. Traria
com ela um forte temporal, com a potência energética de raios e trovões. Fenômeno muito comum a essa época de final de outubro.
Curiosa, notei que Seu Manoel ia cavando
com as suas largas mãos na areia molhada um largo buraco. Esculpiu, na sua
experiência sertaneja, um largo espaço, não tão fundo, mas o suficiente para
caber encolhido o seu avantajado corpanzil. Valor inestimável, aquela sua inseparável maleta de executivo, uma 007 de couro negro, carinhosamente, junto ao
seu corpo logo acomodaria. Seu Manoel
conservava-se calado. Apenas agia. Então entendemos que deveríamos fazer o
mesmo. Por sorte, ainda havia de reserva no barco outras mantas plásticas. Não tão largas como a
dele, mas serviriam, pelo menos para cobrir as nossas cabeças. Seu Manoel, sem
dizer uma palavra, gentilmente, no seu jeito caboclo, logo nos ofereceu.
Antes de adentrar na sua alcova-buraco,
Seu Manoel abriu a maleta 007 e daí
tirou uma arma – um revólver! Meu Deus! Pelo tamanho imaginei tratar-se de um
trinta e oito. Já tinha visto coisa parecida em crônicas policiais de jornal. Rosinha
e eu, ainda com muito medo, não tínhamos palavras para retrucar. Nunca na minha
vida havia tocado numa arma! Rosinha tão pouco.
“Não façam cerimonias! Qualquer coisa...
Podem se servir!!!.” Expressado, de uma maneira tão natural, com tapinhas sobre
o volume que descansava sobre a sua maleta. Isto soou para nós como uma espécie
de caçoada. Homem prático e viajado, Seu Manoel não tinha mais ou menos. Ia
logo direto ao ponto. Ao que falava se dava crédito. Pelo menos por questões de
sobrevivência. Aliás, nunca escutara
antes, principalmente tratando-se de um cavalheiro rude, tamanha ‘gentileza’.
Rastejante, como um lagarto, via quando Seu
Manoel jeitosamente se enfiava sob a larga
manta. Logo via-se coberto, na sua alcova-buraco, ao lado de valioso pertence
–, a sua maleta 007.
Tremendo de frio, e de medo, meio aterrorizadas,
Rosinha e eu significativamente nos
entreolhamos. – Meu Deus! O que será da
gente! Pensei preocupada. Acho que ela também. Este foi sem dúvida um dos
momentos da minha vida em que mais me senti indefesa. Nem durante as minhas andanças pela vasta selva amazônica,
entre Colômbia, Peru e Brasil. Trecho
problemático com o tráfico de drogas, animais silvestres e madeira, faixa de
fronteira tríplice, onde vivi por cinco longos anos, não me sentia desse jeito.
Diria desvalida. Entendi a lição. A partir daquele momento, sem pai nem mãe, seria
cada um por si e Deus por todos.
Caiu a noite. Interminável. Tão densa
como a forte chuva. Mas esta durou breve.
Uma meia hora, talvez. Quando cessou de pingar, dos arbustos sobre os nossos
telhados, providencial plástico de toalhas de mesa com adornos de abacaxis e bananas, algo novo já nos
incomodava sob as vestes. Enormes formigas,
as conhecidas andadeiras, passeavam sobre a nossa pele. Um tormento. O buraco se encheu delas. Não mordiam, mas
incomodavam com a coceira irritante. Na
verdade éramos corpos-vivos, mas sentíamo-nos quase defuntas.
De longe nos alcançava o esturgir de
onças e os mil ruídos de bichos outros. Ameaçador.
Tão longe e tão próximo! Este era o som
da floresta circundante que tomava conta da noite. Ninguém ali iria dormir. Talvez
cochilasse um pouco. Por questões de sobrevivência, nem é preciso dizer, acho
que ninguém, em sã consciência, conseguiria dormir numa situação daquelas. Procurei
afastar a lembrança temerosa da tarde. Aqueles enormes jacarés ao longo das praias, não muito longe de
onde estávamos.
Lanterna prestativa. Seria uma boa arma
de salvação, pelo menos assim pensava. Com frequência clareava o mostrador do
relógio. Acho que estas foram as horas mais arrastadas da minha vida.
Finalmente aliviada, assistia aos primeiros sinais de um final prolongado de
uma madrugada sinistra. A radiosa aurora,
cuja luminosidade, resplandecente no céu ainda meio escuro, logo desvaneceu
os maus presságios. Aos primeiros lampejos do sol logo partiríamos. Sem o café
da manhã. Na ansiedade, enchemos o nosso estômago com água e muitas bolachas,
uma atrás da outra. Só nos restava
sonhar com uma mesa bem posta. Talvez com sorte, pão torrado e banana frita e, o aroma volátil
de um café recém-coado. Apenas miragem distante. Ilusão de faminto.
Paramos em Macaúba. Fomos bem recebidos
pelo chefe do posto, o gaúcho Lourenço. Curiosamente ele era casado com a índia
Suyá, a filha do velho Karovina, um dos
chefes da aldeia Karajá. Comemos bananas
cruas, e beijus sem sal. Ao invés de café, somente água fria do pote, gentilmente oferecida. Abastecemos
o barco com as frutas que Lourenço amavelmente nos ofertou.
Despedidas. Abraços, recados e
recomendações. A professora Rosinha ficou. E nós, o barqueiro e eu, partimos. No
barco, restou um enorme vazio. Sentíamos falta da mineirinha de Pedra Azul. Embora
calada, sua presença somava esforços. Companheirismo.
Finalmente, já no Tapirapé. Preocupada
com o tempo, comecei a pensar como seria a volta a Santa Isabel do Morro, a
minha base já tão distante. A estação das chuvas comumente trazia incertezas. Algo
me dizia, que após missão cumprida, como em outras ocasiões, regressaria sã e
salva. Remeteria à Funai em Brasília para
avaliação de praxe, os muitos papéis, geralmente em quatro vias, relatórios de mais uma
atuação. Quanto à minha pessoa,
restariam muitas dúvidas, e questionamentos lógicos quanto a duvidosa empreitada.
Por sua honesta posição, sempre ao lado dos índios, o indigenista Eduardo Almeida, terminou por ser dispensado. Uma pena.
Xaropes ineficazes. Remédios vencidos.
Afinal, para quem seria o benefício? O
almoxarifado continuaria repleto desses vencidos. O malefício estava feito. A
mortalidade infantil era fato. Quantas vezes se discutia com o bispo esta
espécie de atuação. Estratégia velada de possível genocídio?
Após seis horas de “voadeira” rio acima,
finalmente desembarcava. Os índios, sorridentes, ajudaram a transportar pelo barranco
acima as tralhas necessárias ao trabalho de “arranca-dentes”. Caixas de suprimentos variados. Trazia velas e
fósforos, também açúcar, café e biscoitos, coisas que dividiria com os índios.
Seriam artigos indispensáveis para um mês de permanência, No final ficaria
desprovida mas comungava o bem comum. Comia satisfeita a comida de todos.
As senhoras, missionárias católicas, as simpáticas
irmãzinhas francesas da ordem de Santa Tereza, vieram me receber com sorrisos
de boas-vindas. Apesar do calor sufocante, trajavam-se elas, invariavelmente,
em seus hábitos negros. Os índios, se viam livres de adereços, alguns de calção
e outros, na sua maioria, andavam seminus. Questionável era a presença das
missionárias católicas por parte de antropólogos ortodoxos. Mas, bem ou mal,
dia e noite, estariam elas prontas a arregaçar as mangas, assistindo a
comunidade na medida do possível.
Partos complicados. Malária e disenteria. Males comuns. Fisgadas
de arraia eram comuns aos homens que saíam para pescar. Acidentes ali não faltariam.
Médico, só de muito longe. Às vezes levavam três meses para chegar até ali. A depender
da gravidade vinham de Brasília, pois o da base encontrava-se sempre em deslocamentos. Fazendo cursos ou em
campanha de vacinação.
As missionárias francesas, responsáveis
pela catequese dos índios, eram de um apoio logístico inestimável. Principalmente
a irmã Maria. Enfermeira graduada, já havia atuado na África, no programa do Sem
Fronteiras.
Graças ao aparato radiofônico da missão,
podíamos solicitar um barco ou um avião a fim de conduzir o funcionário de
volta à sua base. A estas alturas as
águas já estariam bastante altas e a viagem de avião monomotor se tornaria quase
inviável. Voltaria de barco outra vez, torcendo para que fosse o de Seu Manoel.
Andava pelos estreitos caminhos da mata
entre a aldeia e a sede da missão. Bem, não sei onde começaria a realidade ou
onde terminaria a minha vã fantasia. “Bonjour
mademoiselle!”, Era a voz do índio Romany. Espantou-me tal saudação. Bizarro, vinda
da boca de um índio Tapirapé. Naquele
longínquo meridiano de uma isolada selva mato-grossense, imaginei possível
ordenação, equivocada da luz, na trajetória de primitivos costumes.
Enquanto aí estive, Romany tentou ensinar-me
algumas palavras da língua o Tupi. Era bem vinda à aldeia Tapirapé. Romaní tentou ser meu amigo e assim o conseguiu.
Mostrou-me seus desenhos a lápis de cor. Neles se distinguiam traços próprios daquela
cultura. Eram besouros, borboletas e o icônico avião da Funai, cujo símbolo, bem conhecido por sinal, um vistoso cocar
de penas de araras, nas cores azul e amarelo. Inconfundível.
Se por acaso chegasse alguma autoridade
de Brasília, Romaní fazia questão de usar o quepe e o rayban do piloto. Não sei
como conseguiu. Na verdade sentia-se ele comandante, do seu pequenino avião de
papel. Pelo seu desenho mostrava-se que nem um chefe, uma pessoa importante. Fizemos
amizade. Romaní ensinou-me as trilhas secretas da floresta. Revelou-me
preciosos mimos da natureza. De variadas cores, passarinhos e aves maiores. Quanta
diversidade! Fazia questão de citar todos os seus nomes. Tamanha empolgação. Seria
quase impossível gravar os muitos nomes, principalmente na língua Tapirapé. Flores
pequeninas, delicadas orquídeas brancas, inacessíveis, no alto de longos
troncos, maúbas centenárias. Belas
imagens. Inesquecível panorma, restaria-me de consolo.
Somente o básico. Um fogareiro a gás. Um
muflo pesado. Uma caixa de metal com o instrumental que necessitava para o
trabalho. Romaní passou a acompanhar-me nos eventos odontológicos. durante a locomoção
pela aldeia ele fazia questão de carregar a pesada tralha. Se precisasse de
água, lá ia ele pegar. A mais limpa
possível, num trecho de rio ou distante
igarapé, meio escondido entre as árvores. Água boa, dizia ele. Além da função
de arrancadora dentes, também tirava
moldes dos desdentados a fim de confeccionar as dentaduras. Eram tantas! Na
verdade, o trabalho do dentista seria erradicar, definitivamente, os dentes
estragados, extraindo-se os injuriados. Seja de adultos ou de crianças. Sentia
pena. Não havia nenhum tipo de prevenção odontológica. Falava-se muito. Vocês
devem escovar seus dentes após as refeições... Mas eles comiam a toda hora,
quando bem entendessem. Era um coquinho aqui, um pequi ali, enfim, como se diz
nessas situações, era o mesmo que tentar encher um saco sem fundo. Procurava
ensinar-lhes como se deveria escovar os dentes. Palavras ao vento.
A Funai enviara a pedido meu, um lote de
caixas com escovas de dentes, em variadas cores. Todas em tamanho grande! Para minha surpresa,
na véspera da partida, já via algumas
dessas espalhadas pelos arredores, nos terreiros das malocas. Serviam apenas
para escovar os utensílios domésticos. Se não serviram para seus dentes, pelos
menos, para limpar a fuligem das panelas já se mostravam eficientes. Cultura
ultrajada. Alimentação introduzida. Açúcar e amidos. Bombons e bolachas. Danos
consequentes.
Uma tarde, após longa caminhada
juntamente com algumas crianças, alcançamos o plateau da montanha próxima. Uma
elevação de talvez noventa metros de altura e que sobressaía imponente na
vastidão daquela floresta plana. Espíritos do universo Tapirapé ali habitavam.
A vista se mostrava fascinante ante os efeitos lúdicos da luz poente. Variações
idílicas em torno do verde. Sentia-me realmente preenchida. A interpretar o
mundo ao meu redor, aquele pedaço de paraíso, onde os mosquitos e o calor
fariam qualquer um desistir. Aliás, desconforto não sentia. Agonia sublimada.
Sempre ocupada, os dias rapidamente iam
se passando. Com pesar, conferia no calendário de bolso, que o dia da partida estaria
próximo. Nostalgia. Numa manhã formada por
nuvens escuras, comecei arrumar a bagagem. Agora bem maior, com os presentes que
havia recebido dos índios. Romaní foi avisar-me, lá na enfermaria, que o barqueiro, atendendo ao pedido do radio
da missão, já havia chegado. Romaní parecia triste, e eu também. Eis quê
naquele instante final, ressuscitando uma certa mentalidade catequista – que ainda habitava em mim, sem
muito refletir, ofertei-lhe exultante, uma lata de “Biscoito Maria”. Foi aí
então, que caí na desgraça sem volta. A da
culpa imediata. Pois, aquele universo orgânico, único, em meio a tantas bananas
e tubérculos nutritivos, acabara de ser violado. E por mim! Entretanto, via num sorriso aberto, e sem
restrições de estética, de levar a mão à
boca, o agradecimento sincero. Encheu-me
de satisfação.
Romaní correu até a sua maloca. A
família o acompanhava. Pronto já retornava, com outro presente: uma pequena e
delicada cabaça, decorada com graciosos desenhos geométricos, um motivo
Tapirapé, que ele mesmo havia feito. Agradeci emocionada.
Visão surrealista – cachorros famintos e
galinhas alvoroçadas já brigavam por pedaços crocantes de biscoito. Subitamente,
para minha surpresa, sem demonstrar nenhum constrangimento, via quando ele abria
a lata de Biscoito Maria e a esvaziou de todo o seu conteúdo. Eu vi Maria sair
da lata! À vistosa lata dourada destinava-se
uma outra função: serviria para guardar a sagrada plumagem das aves. De arara, azul
e vermelha, também de colhereiro, periquito e outros pássaros raros. Penas e
plumagens. Tão especiais, eram como se fossem um caro artigo de joalheria. Eram
as joias da floresta que enfeitariam os corpos em rituais sazonais. Rituais de iniciação, ocasião de nascimentos e,
principalmente, cerimoniais fúnebres.
Os biscoitos não seriam tão importantes assim.
Entendi. Mais uma vez ouvi de Romany o suave, “merci, mademoiselle”. Proporção
inversa, ou fruto metabólico do meu ego? Sua vozinha entrou no meu sistema e
nunca mais daí saiu. O fantasma do espírito desse tempo, de vez em quando, ainda em mim se faz presente.
Lembrei-me então de um fato marcante,
quando da passagem dos meus anos de adolescência. Foi no ano de 1969. Meu pai
comprara o nosso primeiro aparelho de televisão, para que eu e meus irmãos
menores pudessem assistir a chegada do homem à Lua. Feito temporal. Importante.
Um marco na história da nossa cultura. Responsável por inexoráveis mudanças que
vieram a seguir. As guerras ideológicas e o surgimento do universo eletrônico.
O mundo realmente encolheu. estrambólico e feioso, assim era o móvel do aparelho de
televisão. Tinha o formato de uma caixa grande, sustentado por três finas pernas
de madeira roliça no estilo “decô”. Novidade esta que eu e minhas irmãs logo achamos
por bem adaptar ao nosso convívio. Assim, o cobrimos com um paninho de crochê, encimado
por gatinhos coloridos de porcelana barata.
Culturas autocnes, tão diferentes. Lá na
taba contente, via cachorros famintos, brigando por pedaços crocantes de
“Biscoito Maria”. Na minha imobilidade, diante desse momento único e sem as conexões
temporais necessárias, nem no passado nem no presente, caía eu em desamparo. Despencava
no abismo das desproporções culturais. Nas selvas quentes do Tapirapé, em meio
a uma tarde chuvosa de final de outubro, levitava. Em contentamentos. Voei por instante, nas asas
transparentes do besouro verde. No Tapirapé, Romaní era um índio que falava francês.
Amália Grimaldi
2013.
Amália Grimaldi
2013.
domingo, 22 de dezembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Cores
em estado puro
Uma análise da pintura de Varne Abrahão
Valença Bahia
“Pescaria Noturna” e “Colina Sagrada” são pinturas em acrílico sobre tela, do artista paulista radicado na Bahia, Varne Abrahão, e foram exibidas durante o Salão de Artes Visuais da Bahia – 2011, em Valença.
Desobediência à proporção e à perspectiva espacial. Desconhecimento ou infração propositada? Diria que não. Parece-me antes entabular uma
metáfora de heroísmo pela infração do suporte formal acadêmico na procura do
traço elementar. Vejo assim o drama da composição em si - poderosamente
estressada.
O cromatismo é invulgar, de certa forma arrogante. Diria penetrar lancinantemente na retina sensível do observador comum, como um clarão súbito, no prenúncio da tormenta. Incomoda e argui. Mas, acima de tudo, consagra.
Formas e volumes se interpenetram numa
pintura de certa forma selvagem. Parece-me retratar a aspereza e a angústia da
vida humana.
Despudorado no uso do pigmento puro, distingo
nas suas cores uma certa tensão -
característica da sua expressão.
Varne sem dúvida foge ao banal, ao
piegas, ao recurso fácil de pinceladas rápidas que atrai compradores ávidos ao prostituído comércio de algumas galerias de arte.
Articula sua visão entre o micro e o
macro universo onde generaliza alguns de seus acentos marcantes e próprios. E
assim, norteia a sua ótica de pintor. Entretanto, há um certo compromisso com a
representação, geralmente paisagística – A igreja do Amparo ao alto da colina e
o Rio Una com os seus saveiros coloridos, são os pontos chamativos da paisagem.
O artista insinua o real sem contudo descambar para o vulgar, o que o coloca
muito bem longe de assim o ser. Nos símbolos paisagísticos, consegue-se ver
além do seu simulacro e, contorna este pretenso real reafirmando que tudo isto
daria lugar a uma ponderação mais sensível.
E ao capturar-se o imediato sensível,
interroga-se o visível nesta sua produção contemporânea. Poderíamos aí
especular seus meios através da linguagem plástica – inconfundível. Às vezes o
seu expressionismo residual descamba para o abstracionismo volátil. Varne
parece-me ainda preso a esta vertente.
No contexto atual do mundo material
consumista, a subversão da experiência estética pelo valor monetário não deixa
de ser uma cláusula corrompível. Diria
tratar-se do elemento histórico, registro da atualidade. Contaminante para a
arte em geral, o que vem motivando uma certa unidade, debandando para a
produção em massa.
O capital especulativo altera e distorce
a maneira como se deve observar a pintura convencional dos nossos dias. E o
artista termina por acompanhar o mimetismo do estilo, a onda do momento ou, a
polêmica que poderá causar nos meios. Por vezes gerando uma arte prostituta. Entretanto,
a arte vem ganhando uma certa dimensão neste mundo globalizado – unificado,
entre aspas - que talvez prometa uma certa experiência espiritual e quiçá uma favorável
manipulação por parte de instituições patronais, as quais, provocam conflitos de interesse entre mercado
e artista.
A
perda do contexto sempre levanta problemas, assim como os trabalhos de arte são
corporificados com significados que dependem do campo específico do
conhecimento, seja ele histórico, geográfico ou cultural . Assim, vejamos o público
como um corpo, constituído por si só à instancia da percepção e do discurso. A pintura de Varne neste salão foi um exemplo
de coragem. Sobrevive dignamente no
contexto do novo, onde o trabalho de arte colocado frente a frente com outros,
em diálogo necessário, possibilita falar um texto mais complexo ou, brilhar
numa larga tonal amplitude, mais do que se ele estiver isolado.
A
pintura de Varne é de uma dignidade soberba porque vem das raízes do seu
cotidiano frente a frente às aflições humanas e aos conflitos motivadores das
renúncias.
Assina: Amália Grimaldi
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Valença,
não é só isso que se vê
Valença, amontoado de
casas, vias empatadas, gente acelerada, a conduzir seus carros, pela estreiteza
de ruas e becos, mostram-se sempre ocupados. Dramas e conflitos são evidentes.
Homens e mulheres, todos parecem seguir em busca de realizações, de melhorias
de vida.
Valença, enfim, chegou
o dia do seu aniversário! Dia 10 de novembro. A cidade se prepara. São muitos
os argumentos. São muitas as razões. Nas vozes das crianças ouvem-se versos de
hinos exaltados. Aprendem elas, desde cedo, a cantar o patriotismo. Justificada
razão. Isto é civilidade. Aplaudem os adultos. Contenta-se autoridades. Cheios
de brios, lá de cima, num breve pedestal de estátuas, acenam. E o povo, já acostumado às sarjetas, lá embaixo na rua,
atendem à obrigatoriedade, a de se fazer presente no aplauso. Batem palmas.
Todos batem palmas. Valença, apupada,
acontecimento espetacular. Mas não é só isso que poderá descrever Valença. Aliás, muito já foi dito, sobre a dignidade de
seu povo. Do passado histórico da cidade, e de homens de
vulto que aqui nasceram. E de muitos outros, aqueles que vieram de outras
bandas, ilustres cidadãos, doutores e políticos, homens de negócio, os que aqui
criaram fama e fortuna.
Aqui estou a falar de
um lugar lá fora, altaneiro. Lugar mais além de aplausos e retumbâncias. Falo
de Serra Grande, um lugar que à primeira vista, pareceu-me despontar das
nuvens, mais perto do céu. Em
atendimento odontológico, tempos atrás, costumava aí chegar pela manhã, no
carro, o consultório móvel. O médico e o dentista, significação da melhor
intenção da municipalidade na saúde, na pessoa do prefeito de então, doutor Agenildo Ramalho. Tentava amenizar
possíveis dores de dente. Nem sempre possível. Havia limitações. Voltaria na
semana seguinte. Avisava.Nem precidavam agradecer, pois essa era a nossa
obrigação.
Serra Grande. Longe das vistas de muitos, lugar
esquecido das multidões. Lugar este que muita gente nem sabe que existe. Ou,
pelo menos finge, ignora. Viajo por vias tortuosas, asfalto quente. Em balanços
de curvas fechadas sei que logo alcançarei a ansiada beleza solar. Entre
sombras e luzes, alcançarei a paisagem serrana. Ainda hoje, deixo-me descansar em
pensamento, na serenidade das tardes calmas de Serra Grande. Se no inverno, o
melhor agasalho seria a morna acolhida. Seu João, na firmeza do aperto de mão, dava mostra de sinceridade, enquanto
Dona Maria, no sorriso, nem precisava falar. “Vamos entrando minha gente!”
Ah, deixa-me cantar
esses rios, vasta planície, verde, sempre verde, o ano todo, frescor eterno que
alimenta. Ah, e a represa, água contida, deixa-se cantar a infância, banhada de
alegrias, lançando o anzol, esperando o peixe. São essas águas, sempre
correntes, fluidez que nos transporta ao
mundo dos sonhos e ilusões. Tempos quando, sentados ao alpendre, o compadre e a
comadre, a vizinhança reunida, no
conluio que agrega, a amizade floria. Parece
que foi ainda ontem. Mas, cresci. Ontem menina hoje, canto a beleza dessas
paragens, serra espetacular. Serra
Grande, um pedaço fértil de Valença. Conheço bem a sua gente. Mulheres, em
bordados e plantas graciosas, fazem crescer bondades, nos muitos filhos que pariram
e neles a creditar um mundo melhor. Rapazes e moças enviadas à cidade, para
estudar e trabalhar. Ser alguém na vida. Esperança de todos. Serra Grande,
espraida nas encostas de sua serra, traz nos vales aguados, a fertilidade que o
intruso devora na cobiça e paixões
mesquinhas. Seu povo é forte, vence os medos, na força da obstinação, deixa
mostrar no trabalho a dignidade do homem no manejo da terra. Cacau, cravo e
dendê. Vacas pastando. A manteiga derretida. O leite e o queijo. Ovos cantados,é
voz de galinha poedeira. Fartura aí, é festa de todo dia, é produto do esforço
suado. São quintais abençoados.
Ah, deixa-me cantar
esse pedaço de terra, pois hoje, a falar desse arrebol, também falo de Valença,
tão ampla, mas que não é só de rio e mar. Valença, minha gente, é tudo isto, e muito mais. O que acabei de aqui
cantar, poema de louvor sincero.
Amália Grimaldi
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
O que nos leva a galgar a íngreme incerteza desses dias
Mas, como me falava ainda outro dia, em
significativa mensagem, o meu amigo do Poço da Panela, escritor e poeta (bom de
prosa), Pedro de Albuquerque, pernambucano de sangue nobre: “tudo o
que eu queria, mesmo, neste instante, era estar trepado no terraço de um
sobrado, de frente para o mar, bem no alto de um dos casarões do Pelourinho.
Quem sabe ali, pelas sagradas Portas do Carmo, sentindo o cheiro de toda a sua
gente, arfante e suada. Comer um acarajé, bem crocante – e com muita pimenta!
Só para refrescar o estômago. Esmagar, no prazer palatal que tonteia, a delícia
de um camarão torrado com a força dos maxilares.
Ver tudo trepado e espremido, como Gilberto
Freyre, a testemunhar os seus morros a parir o Brasil. Falar mal dos Jesuítas
para, depois persignar-me, diante do Senhor do Bonfim. E, poder acreditar no
eterno, perplexo com o permanente...”
A velha cidade que se revela contente. Esta
é a minha cidade. Quando estou em Salvador, e tenho oportunidade, e sem outros
maiores compromissos, gasto um bom tempo nas livrarias do centro,
principalmente nos sebos da Rua da Misericórdia. Ali,
meio que escondidinhos, entre o remanescente barroco de casarões decaídos, e
fachadas de vidro e aço inox do modernoso hodierno, esses antigos alfarrábios estão ali, bem atrás
da Rua Chile. Um achado. Envolto no mistério que me atrai.
Sair por aí, a perambular sem destino
certo, nutre a alma da gente. Da Rua Chile, em passos
largos, logo alcanço a Misericórdia. E lá vou eu. Sigo no
rastro desses livros raros. O cheiro dos sebos transmite certo mistério,
no que encaderna o volume, que a um tempo foi amado (ou
odiado), e manuseado a contento. A essência de um tempo e de
seus antigos donos, uma leve idiossincrasia.
Aprecio o cheiro do livro. Se velho, me traz
mensagem na lembrança. De alguém, em algum lugar distante. Se novo, viajo nas
suas páginas. Mas, acima de tudo, olho e admiro nos livros; alguns o seu
próprio peso. Outros, pelo seu desdobramento cultural – no espaço e no tempo.
Que nem Dom Quixote, meu velho conhecido companheiro, habitante de
uma estante desarrumada, e de onde subtraí algumas folhas, do
cavalo Rocinante, obra do grande ilustrador francês, Gustavo
Doré. E meu pai, sem a continuidade da sua leitura, irado ficou. Arquei com as
consequências e tudo se acabou. Tempos de infância.
Pois é, o livro dialoga com outros códigos.
Mas, por defasagem, os livros também poderão não ser mais lidos. Decretada a
múltipla falência de seus códigos, logo serão jogados a um canto. É morte
certa.
Inegável é a influência da imagem, de
cartazes, outdoors, luminosos e letreiros outros, recursos utilizados na
propaganda de produtos diversos. É grande a variedade desse material, em placas
à beira de estradas. A gente vai por aí viajando e, de repente, temos a
nossa atenção captada pelo texto insurgente. Às vezes é figurativo,
sem legenda. Compreensível. Esteticamente feio, digamos assim, mas
atraente. Atrai a nossa visão. Questão de pronto reflexo, pois foram
construídos em cima dessa estratégia. Inter-relação imediata. Trata-se de uma
invasão retiniana, sem dúvida. É de cansar a menina dos meus olhos!
A minha e a sua. E a de muitos outros.
Como dizia Apollinaire, é preciso que a nossa
inteligência se habitue a entender sintático-ideogramicamente, ao invés de
discursivo analiticamente. Eis aí o processo acelerado das mutações da
linguagem da nossa época! Adoro o livro, digo e repito, por ser um gerador de
sentimentos. Sem dúvida, trata-se de um objeto no espaço. Se o livro
impõe limites, físicos e formais, também impõe uma leitura de uma lógica, no
discurso da própria linguagem.
Por questões de segurança, quando estou em
Salvador, costumo dirigir-me ao Shopping Center da Barra. Uma
atração à parte, pois também aí, adoro o insubstituível aroma do café
passado na hora, especialidade da pastelaria árabe. Um bom café expresso. Seus
grãos de nobre cepa, Rubiácea ou Arábica, reservam o prazer da satisfação
volátil. E, sem açúcar! O ciclamato de sódio termina por matar o deleite
de papilas gustativas. E, o meu também.
São tantas as lojas! As vitrines, iluminadas
e chamativas, são um convite ao pecado! Sábia, pelo menos em matéria de
discernir, o desejado do não necessário, aprendi com o tempo a não sucumbir à
vil tentação dos modismos. Mas, tem um detalhe, eu só uso, de
preferência, roupa sob medida. Simplesmente me dou ao luxo de ter uma modista
ao meu dispor. Mestra no que faz, ela é uma senhora cajaibana,
costureira de nome em Valença, por isto muito requisitada. Carinhosamente
chamada de Nini, uma profissional de talento. E como ela sabe
medir! E cortar bem! E costurar! Como ninguém mais. Costumo dizer:
que tesoura de ouro! E não é só para agradar. Ela é mesmo preciosa! Pelo menos
para mim.
Mas, nada como andar ao ar livre, permitindo
que venha o inusitado acontecimento, somente para renovar o sedimento cansado
de acontecimentos passados. Para mim, a moderna atmosfera de lugares confinados,
costuma ter um cheiro plástico, inorgânico. Talvez devido ao ar condicionado
central, o que para mim, às vezes, se torna sufocante, principalmente se não
tenho a intenção de fazer compras.
Mas, cadê a bandeira?! Me convenci,
definitivamente, que já expulsaram os holandeses daqui. Lembrei-me do meu caro
amigo pernambucano, Pedro de Albuquerque. É que já sentia falta da
representação consular holandesa, bem ali, no topo da ladeira. Sinal dos tempos.
Eles já não se encontram mais no largo do Carmo! O belo casarão colonial
ibérico a mostrar suas portas escancaradas, de onde já via passar alguns
carregadores, suados trabalhadores da construção civil com os carrinhos
de mão cheinhos de debris. Provavelmente pertenceria este notável casarão a outro dono, visto que já passava
por uma densa reforma.
Aliás, estas ruas do Centro Histórico de
Salvador, atualmente, já não são tão seguras, principalmente para se
transitar às escuras. Percebi no que residia ali, bem defronte ao
Convento do Carmo, o vulgar banal desses dias –a presença ostensiva de um
policial armado. À sombra da tarde de um velho muro, via-se mudo. Em seu ofício
de olhar e zelar por outros, indiferente, por não mais ter o que fazer,
assim passava seu tempo, a brincar com os próprios dedos. A conversar consigo
mesmo.
Subir e descer o Pelourinho, por aquelas
íngremes ladeiras, calçadas de pedra redonda, e sem medo de escorregão, é
galgar a íngreme certeza de que –, Deus, é mesmo brasileiro!
É na aragem fresca das tardes de Salvador, sentindo o sopro úmido da sua baía azul, que
penso estar mais perto do céu. Ao lado de seus anjos barrocos, negros baianos–
descendentes de alforriados contentes- e dos não legitimados, fruto de paixões exacerbadas ('petra scandalis'), que os jesuítas caolhos ignoraram - bastardos morenos tupinambás, gerados por cunhatãs, escolhidas, ao leito do português Diogo Álvares, escondido nos arrecifes de 'Maiririguig', na embocadura do Rio Vermelho. Sinto no ar toda a
organicidade de Salvador, lama de seus becos recônditos, chão de patife, às
vezes palco de afogados, daqueles desesperados, a boiar em águas de pensamento
raso. Tudo de bom e de ruim aqui convive, lado a lado. E é nessa convicção que se pode alcançar a graça dos cinco mistérios gozosos ou, a reencarnação do santo
preferido. Um estado de graça. É tudo isto o que nos leva a galgar no
prazer a íngreme incerteza desses nossos dias.
(Ah, aquele camarão! O que veio de brinde; a
baiana foi tão generosa!)
A leitura desse mundo cotidiano, faz
tempo, vem se afastando dos métodos tradicionais fixados pelo livro ortodoxo.
São esses, inegavelmente, os tempos da leitura eletrônica. Vejam só,
alguns amigos já entraram nessa onda, mas eu, pelo menos por enquanto,
ainda não me decidi. Na verdade ainda não caí de amores pelo
e-book.
Particularmente, vejo o livro como matriz de
sensibilidade. Mas, acima de tudo, objeto de linguagem. Por isso cuido bem dos
meus. Tenho ciúme deles. De vez em quando faxino as prateleiras da estante e, com
carinho, vou tirando a poeira intrusa. Aprecio cada volume,
distintamente. Até sinto o cheiro e a lembrança de algum lugar, a um tempo
qualquer. Faço leitura sinestésica. – Eu sinto seu corpo em minhas mãos!
(“Nada mudou por aqui”– Amália Grimaldi)
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