quinta-feira, 2 de maio de 2013


Um poema constrangido

 

 

Ruas meladas. Ruas apertadas. Entre paredes de frágil adobe respira-se ar saturado. Inquietação comungada.  Portas abertas. Cumplicidade de casas devassadas. Corredores de todo dia. Garganta sensível, passagem de visceral arroto. Úmida organicidade de seus bolores. Mofos domésticos. Conflitos familiares e rituais de mesa posta.

Arrastar de cadeiras. Sons abafados são vozes de resignados. Lá fora, o cão, ladra sem dono. Ninguém dele se aproxima. Pede cautela.  Nessa rua apertada, mora um carro amassado. Apenas figuração da falsa ideia de emancipação – breve alforria. Dilui-se no engano do pertencer. Altas taxas tributárias conduziram-no à falência de seus múltiplos órgãos. Pingos de goteira cantam sua última melodia na sofreguidão do ritmo das horas corridas. Desenha a arte do tempo a sua distinguida escrita, oxidação inevitável. Alquimia de horas corridas. A bela cor da ferrugem; conceitual expressão de óbvia narrativa.

Rostos, muitos rostos. Rostos morenos, rostos negros. Rostos estrangeiros. Rostos nativos. Muito calor, gente suada. Apaziguador, é  esse vasto céu azul que os olhos procuram. Grandeza de todos.

Sombras e luzes. Sol necessário. Impunidades se mostram desiguais, em seus volumes legais. Falsidade ideológica. Falsos papéis.  O sistema obriga. Sem isso não se anda. Ouve-se a voz inquietante. Um grito. Um pedido de socorro. É a ira do ser arruinado – pelo ódio ou pelo amor.

Louça trincada. Visão esmaecida. Cores desbotadas. Vontade desmaiada. Fenômenos apáticos – abstinência de escolhas. Decadência do espírito crítico da identidade coletiva. Luz acesa, vigília dessa noite longa, ao longe se distingue.  Nem todos dormem. O azoto da arrogância incomoda. Como fede esse sistema! Rege o destino dos mal nascidos, concebidos em lugar confinado. Não pediram para que isso acontecesse.  O choro da criança, o movimento da mão na carícia; breve resignação. Apazigua e conforta. Mas não dá jeito. 

 Linhas tortuosas. Labirintos e corredores de perigos. Entre paredes de abobe comum, o sinistro e a razão, convivem lado a lado. Xingar o vizinho é ponto crucial. Chegando-se por vezes ao debate fatal. Seu ponto final. Mas, se a noite é de prata crescente, com sorte, será de prata cheia.

Ariadne traz com ela o providencial cordão; a guia mestra da sensatez. Curioso efeito ambíguo.  Expansão proibida do ser no terreno fértil dessa longa noite. Convence, na razão. O Minotauro, então, será vencido. 

Aqui, ao fundo desse beco medroso, não é um fim de mundo. Vejam, os gatos encontram-se no cio! Contudo, é o homem, quem poderá se arruinar – no ódio ou no amor.

Aqui, ao fundo desse corredor escuro, uma lua de prata se distingue. E no silêncio do ar parado, o piar da ave noturna, é suspeita de coisa temida. Semeia inquietação.

Aqui, ao fundo desse húmido corredor, ama-se o lugar onde não se está. Ama-se a cara de outras gentes. Mas tudo não passa de metáfora na rima de paredes sem métrica. Assim, escrevo esses meus versos quebrados, no ritmo de horas sofridas, alegoria concebida. Mera expressão de voz inquietante. Meu breve e concernente constrangido poema.

Autor: Amália Grimaldi

 

 

 

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Filha do Padeiro Galego

A Filha do Padeiro Galego



Autor: Amália Grimaldi

Quando nasci, pensando em mim, meu pai,
no duro solo do pátio murado, meu pai,
plantou uma árvore.

Pensando em mim, talvez, mas fugindo de si.
Pensando em mim, meu pai, libertou o cego pássaro da gaiola. E este, no rastro do cômodo cativeiro resignado, às sombras da tarde, logo regressaria.

Acredito também, desejasse meu pai, escrever algo. Talvez a justificar o direito de viver, a medir caminhos de águas,  a fugir de si mesmo; no seu modo de fazer e no que faria. Pareceria ser igual. Mas não era. A linguagem muda é depurada. Tem conteúdo.

Pensando em mim, no que fora antes, meu pai, a marchar obediente, por estreitos caminhos de angústia, imaginou-me, num pedestal de estátua.

Ao vento súbito, a solidão enxotada. Esse imigrante galego, no assobio do seu trovadoresco silêncio, despertaria.

Silêncio aquele, onde  palavras dançariam, no discurso do  pensamento primitivo. Sem o adequado articular verbal, contudo, num silêncio de denúncia aos seus vinte e poucos anos, de palavras perdidas, no mar da angústia, quando a bordo do grande vapor Alcântara, com outros patrícios, atravessou o Atlântico. Aportou na Bahia de Todos os Santos. Áspero chão. Limbo do ser. Pátio de suas noites insones.

O terreno da sua antiga canção, devastado, ora baldio, de versos necessários, se convertera no mito distante; a terra galega, útero fértil.   

Os vinhais, distantes, morridos no tempo. Os canastros, vazios, de argumentos necessários, se quedaram inúteis. 

Pássaro cativo, alma da sua poesia, ao cair da tarde, logo regressaria. Restaram-lhe lembranças frias, estrelas em orvalho de serenos distantes e desejados jasmins da infância, que nunca vingariam. 

No argumento daqueles seus dias, tarefa pesada, mantinha a mão na massa do pão. Argamassa de todos os meus dias. Alimento dessa narrativa. Eu sou a filha, desse padeiro galego!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013


Suave forma de intoxicação

Meu lábio amargo

Seus metais pesados

Seu resquício roxo

Nesta minha unha frouxa

Pedaço da meia-noite

Sol de lâmpada ao canto

Inacabada porcelana

Meia xícara do que mais for

São estes biscoitos

Vermelho senão outra coisa

Ao negro cão

Que se põe ao canto

O que deixou de se falar

Uma suave forma de intoxicação.
(Amália Grimaldi - Por onde Ser, poemas)

 

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domingo, 24 de fevereiro de 2013

NÃO LEIA!: SECULT-BA, AGÊNCIA DE MARKETING

NÃO LEIA!: SECULT-BA, AGÊNCIA DE MARKETING: Ru(b)im ouvindo reclamações. Em 2012, a Secult-BA lançou duas levas de editais destinados a financiar projetos culturais, entre os qua...

Mais uma vez um petardo é lançado de encontro a casa que vem sendo construída com suor e muito trabalho, bloco por bloco, cimento e água e de repente... tudo parece desmoronar. Sim, ele é o dono da força bruta.
Calma pessoal, algo resiste; o essencial, indestrutível. Isto, o ditador não conseguirá destruir; a força do culto pensamento inteligente!